PARA MEU COZINHEIRO NESTE ENTARDECER DA VIDA.
Quantas vezes de manhã percebia no fogão evidentes sinais de que alguém de madrugada, sorrateiramente, havia invadido a geladeira em busca, sabem do quê? Lingüiça, bem gorda, atentado fatal a um fígado não muito jovem e com sérias evidências de esteatose. De outras vezes, aquele pratão de feijão com alho e azeite também havia sido motivo de deleite sem fim. A panelinha velha de fazer calda de nega-maluca em muitas manhãs aparecia com uma água cor de laranja. Salsicha com um monte de mostarda e lá vai no outro dia aquelas homéricas cagadas literárias que aos poucos foram se transformando em acirradas competições para ver quem conseguia resolver o caderno de palavras cruzadas, comprado no Silva enquanto eu ia acertando as contas no caixa. Ó vida, ó dor!
Assim se passaram muitos anos. Quantas vezes encontrei o autor destes pequenos roubos, arrumando alguma máquina, ou coisa que o valha, com uma mão e, com a outra, comendo às escondidas salsicha crua, porque o sargentão português naquele dia estava de plantão.
Mas, como tudo tem suas idas e vindas, hoje as coisas mudaram completamente. Não posso mais fazer a ronda da cozinha, das panelas e da geladeira. Problemas de saúde acabaram de vez com minha função de inspetora do lar. Melhor para a família e, para mim, aprendi que não sou de fato tão poderosa e imprescindível como supunha. Não consigo cozinhar, preciso de ajuda para lavar a cabeça e me locomovo pela casa numa cadeira de rodas para não agravar umas feridas que teimam em permanecer nos pés.
Que fazer então? Fácil. Geraldo, meu companheiro, amigo e amor de tantas vidas resolveu assumir mais funções além destas. Virou cozinheiro, faxineiro,
office-boy, trabalha no setor de compras, e me faz uma companhia tão constante e tão doce que às vezes o meu coração fica apertadinho porque sou capaz de perceber exatamente o que ele está sentindo.
Mas vamos por partes. Setor culinária. Vocês já imaginaram um homem que só sabe fritar lingüiça, fazer salada de feijão e ferver umas salsichas ser capaz de cozinhar para alguém que tem sérias restrições na lista de alimentos? Pois é. Depois de um mês de treino e de uma boa vontade sem limites estou me alimentando com refeições saudáveis e de muita qualidade. Frango de panela, picadinho com batata, purê de batata, molho de macarrão à bolonhesa, frango assado e, pasmem, geléia de maçã! Sei muito bem que cozinhar não é a atividade preferida do Geraldo mas como “o amor move o sol e as outras estrelas” aqui estou eu deslumbrada com esta nova revelação.
Pode ser até que eu tenha ficado doente para perceber quantas janelas luminosas esta doce criatura que é o meu marido é capaz de descerrar nesta linda jornada de nós dois e de todos os que partilham de nossa história.
P.S.
No próximo dia 30, Solange e a família, Valquíria e a família virão até Caraguá. Sabem o que Geraldo vai preparar pela primeira vez na sua vida, aos 73 anos de idade? Feijoada no nosso fogão a lenha.
Voltarei a dar notícias.
Caraguá, 26 de junho de 2005.
E SE O MEU CORPO EMBARCAR PARA OUTRO MUNDO DISTANTE, A MINH'ALMA HÁ DE SANGRAR PRESA AOS CASTELOS DE ESPUMA QUE EU CONSTRUÍ JUNTO AO MAR NAS MINHAS A ILHAS DE BRUMA.
Um Verdadeiro Paraíso Perdido no Atlântico
"...POR ISSO EU SOU DAS ILHAS DE BRUMA
ONDE AS GAIVOTAS VÃO BEIJAR A TERRA..."
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