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Um Verdadeiro Paraíso Perdido no Atlântico

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quarta-feira, 2 de março de 2011

PARA VÓ IRENE

IRENE BOA

Lá estava ela e seu companheiro de décadas. Sentados num velho sofá que deveria ter segredos jamais revelados. Chovia muito. Parecia até que naquele dia cheio de neblina o universo inteiro se cobrira com um luto inevitável. Estavam todos de luto. Amores perdidos, vida fragmentada em estilhaços de muita dor. Será que um dia voltariam a sorrir? Talvez... Os olhos azuis de uma transparência divina já adivinhavam o que estava para ser dito. De pé, na porta do cobertinho dos fundos, um jovem casal; ele já fizera parte da história daquelas duas criaturas, cheias de dignidade e silêncio. “Esta é a minha nova companheira”, arriscou meio timidamente o rapaz. Os olhos azuis transparentes percorreram léguas em segundos; o que iriam buscar? Conforto, alegria, tristeza, saudade, medo? Só mais tarde tive a resposta: aquele, sim, era o verdadeiro olhar dos justos, dos que perdoam sem reservas, dos que tudo entendem, dos que respeitam o caminhar dos menos sábios. Ah, minha Irene boa, seu olhar ainda me acompanha quando os dias são lentos e escuros, quando é melhor calar , quando não há nada mais a esperar. Esse olhar ainda hoje é meu farol apontando rumos.
Pois é. Foi assim o meu primeiro encontro com a Irene que quase levitava para não incomodar os que ainda se refestelavam “atrapalhando o trânsito”. O rapaz, muito diplomaticamente me deixou sozinha com Irene no cobertinho, alegando que precisava comprar alguma coisa para o almoço. Lá fomos nós duas para a cozinha, lugar quase sempre apropriado para as conversas ao pé do fogo.  “E agora?” Tive uma excelente saída: como sou dada a panelas e temperos, fui encostando a barriga no velho fogão. Não me lembro se conversamos, o que conversamos, talvez cada uma de nós estivesse preparando um adequada lista de palavras para não “melar” o meio de campo. Finalmente terminamos de preparar um franguinho com batatas. A certa altura reparei que Irene, com a panela na mão, olhava indecisa. Arrisquei uma pergunta: “está precisando de alguma coisa?” Toda encabulada acabou confessando, como se fora uma grande falta, que não tinha uma travessa. “Que é isso, dona Irene? Vai mesmo na panela”.Ela não sabia que eu já tinha ido descalça para a escola, que muitas vezes chorava de manhã porque só havia café preto, que muitas vezes jantava dois copos bem grandes de chá, enfim , que  eu era de carne e osso, que aquele franguinho iria ficar ficar bem mais gostoso e quentinho na panela. “Então você  não se importa?”
“Claro que não, disse eu.”Naquele momento o mundo se fez doce, morno, aconchegante. Irene abriu os braços onde tantos se tinham aninhado, bons e menos bons, fortes e nem tanto, aqueles braços  me recolheram, afugentaram meus medos, e eu, então me fiz naquela hora a menina que um dia vira de perto a solidão de noites frias. Hoje ainda eles estão prontos recolhendo os que estão para chegar. A dor que me fustiga é de saber que, se houver um encontro, será tão fugaz  como um sopro.


Um comentário:

  1. IRENE É A MÃE DA PRIMEIRA ESPOSA DE MEU MARIDO, FALECIDA HAVIA APENAS UM ANO, A QUANDO DA VISITA, AQUELA DA QUAL EU TINHA TANTO RECEIO.
    FOI UM ENCONTRO INESQUECÍVEL.
    ELA ERA A DOÇURA EM PESSOA...
    QUE SAUDADES!!!

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SALVAÇÃO

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SURSUNM CORDA! (erguei os corações ao alto)